O quão difícil é abrir um indivíduo de 6cm, escorregadio e “molinho”, difícil de manter estável para um corte preciso?
Esse foi um dos meus desafios quando iniciei meu projeto de mestrado.
Bettas são peixes ornamentais pequenos e com os órgãos concentrados na metade do tronco à porção cranial, o que contribui para a falta de um ponto de equilíbrio homogêneo do corpo do animal, uma vez que a porção cranial é mais pesada e densa, enquanto a porção caudal é literalmente só a cauda (afunilada).
Conseguir mantê-los firmes para fazer uma abertura que não destrua muito do tecido adjacente exigiu destreza e coordenação. Obviamente que, no início, minhas incisões estavam longe de merecer um selo de qualidade.
Entretanto, o tempo, a prática e as conversas/convivência com outros pesquisadores me auxiliaram a desenvolver novas técnicas para abrir esses indivíduos tão diminutos sem comprometer a amostra.
Se você veio parar nesse artigo, ou está interessado na necropsia de peixes diminutos, ou já está imerso nessa área e precisando de uma luz.
Pensando nisso, resolvi compartilhar com vocês algumas dicas que foram muito úteis para mim durante minha jornada no laboratório de patologia lidando com esses pequenos aquáticos.
1. Tenha as ferramentas certas
Animais pequenos requerem instrumentos compatíveis com seu tamanho.
Se tem um item que foi minha maior aliada foi a tesoura oftálmica. Adquiri uma curva e uma reta nos tempos em que comprar itens importados não era taxados, logo, comprei quatro delas (dois pares de cada) numa promoção na AliExpress.
Infelizmente, o valor dessas tesouras no mercado nacional é alto se comparado com as tesouras comuns. Porém, o custo-benefício compensa cada centavo: a precisão do corte e a facilidade dela acessar as pequenas cavidades e estruturas dos meus bettas fizeram uma grande diferença ao final do serviço.
Se possível, invista em pelo menos uma!
Bisturi cabo 3 e tesouras cirúrgicas comuns (como a Íris) de no máximo 12cm também são bem úteis durante a necropsia de peixes pequenos.
2. Seja criativo
Para nossa tristeza, o mercado não dispõe de tantas opções para manusear animais tão pequenos. Portanto, é necessário pensar em “gambiarras” (ou DIY, se preferir) que atendam suas necessidades utilizando o arsenal disponível em suas mãos.
Quando eu precisava manter meus peixes em decúbito dorsal, eu improvisava uma bucha de cozinha como canaleta: faça um corte retilíneo no centro da bucha (com estilete mesmo), preferencialmente do lado amarelo (menos abrasivo), de forma que o peixe que está lidando consiga se acomodar no espaço sem ficar tombando e/ou curvando.
Se o peixe for muito escorregadio e estiver com dificuldade de fazer o corte medular (2ª etapa da eutanásia), você pode aproveitar o próprio saquinho plástico (se disponível) no qual o peixe veio para te dar suporte. Após a sedação profunda (tenha certeza que todos os sinais de sedação estejam presentes), coloque o peixe dentro do saquinho sem água, com o dorso voltado para o fundo do saco (onde fica a “costura”). Pressione o saquinho do lado oposto (ventre do peixe) para selar a passagem e pressioná-lo contra o lado da costura, de forma que não fique espaço e o corpo não seja capaz de deslizar. Feito isso, faça o corte medular sobre o próprio saquinho (ele e o peixe serão cortados).Use o que estiver ao seu favor para adaptar ferramentas que cumpram uma função de forma eficiente. Ela não precisa ser bonita; apenas precisa funcionar.
3. Pense em acessórios extras
Um item que me ajudou na hora de enxergar detalhes (como separar arcos branquiais) foi uma lupa de cabeça. Após um tempo ajustando e se adaptando, ela é uma mão-na-roda para visualizar as microestruturas do animal, principalmente do lado interno, garantindo cortes mais precisos.
Ferramentas de manicure também foram úteis em algumas etapas, devido ao seu material resistente (muitos são de inox) e pela extremidade de alta precisão (ponta fina, por exemplo).
Balanças de precisão (igual dos joalheiros) são excelentes para pesar esses pequenos animais, mas se atente para que ela seja bem calibrada. Esse tipo de balança é bem conveniente para quem vai fazer necropsia à campo; além de portáteis, algumas marcas entregam uma precisão admirável, principalmente em miligramas.
4. Não recomendo…
Em minha vivência, um instrumento que eu mantive bem longe dos meus peixes após algumas experiências negativas foi a pinça dente-de-rato. Bettas não eram só pequenos, mas também delicados; a dente-de-rato danificava o tecido facilmente, literalmente rasgando a pele dos indivíduos na hora que eu tentava rebatê-la. Mesmo com pouca pressão ela perfurava e rasgava. Pode ser que você tenha outra técnica (ou sorte), mas, com essa espécie, não vi vantagens em levar uma dente-de-rato comigo.
Ainda hoje, continuo procurando meios para aprimorar minhas necropsias. Aprender a lidar com a espécie da minha pesquisa exigiu prática, muitas tentativas e, principalmente, troca de informação com outros colegas da área. O importante é continuar pensando em formas de aperfeiçoar seu trabalho, sem desistir diante das falhas.Embora essas dicas tenham dado bastante certo comigo, lembre-se que cada espécie é única. O que funcionou comigo, não necessariamente irá funcionar com você.
Não existe uma regra universal para todos os projetos. Porém, caso esteja com dificuldade em abrir seus peixinhos, experimente algumas dessas dicas para ver se elas se ajustam à você.
Você já tinha tentado alguma delas?






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