Durante meu mestrado, encontrei alterações em meus peixes que não estavam dentro do esperado (como toda pesquisa!).
A necessidade por colorações especiais logo bateu à minha porta, e nesse momento, me veio a clássica dúvida de iniciante: qual coloração irá fornecer a resposta que preciso?
Escolher a coloração certa é de suma importância para investigar alterações e esclarecer achados que não são tão óbvios. Além disso, saber escolher também será fundamental para evitar retrabalho e gastos desnecessários de recursos do laboratório, sem contar o tempo desperdiçado.
Será que tem alguma que você não conhece?
Hematoxilina-eosina: sua companheira do dia-a-dia
A HE foi a base de todas as minhas lâminas; apenas ao detectar alterações suspeitas que o material era enviado para as colorações especiais.
A HE permite diferenciarmos as estruturas em dois tipos:
Basófilas: substâncias que se atraem por corante básico, geralmente de caráter ácido;
Acidófilas: substâncias que se atraem por corante ácido, geralmente básicos.
Estruturas coradas pela hematoxilina (basofílica) apresentarão um tom de roxo-azul, enquanto aquelas coradas pela eosina (acidófila) irão se corar em tons de vermelho-rosa.
A intensidade da coloração depende de alguns fatores:
característica ácida ou básica das estruturas. O núcleo, por exemplo, tende a manifestar um tom de azul-roxo bem escuro por conta da alta concentração de ácidos nucleicos;
tempo de coloração, variando por protocolo (quantos minutos você deixa no corante?);
qualidade do corante. Corantes velhos/reutilizados em demasia tendem a perder eficiência.
Investigando micro-organismos
Embora a HE forneça bastante informações sobre o estado do tecido, nem sempre é possível fechar o diagnóstico de alguns micro-organismos, como bactérias. Você pode até enxergá-las, mas vai precisar confirmar!
Nesses casos, o uso de colorações especiais se faz necessário para validar suas suspeitas. Portanto, utilizei as seguintes colorações em algumas das minhas lâminas questionáveis:
Gram
Lembra das aulas de microbiologia? O princípio aqui será o mesmo!
Essa técnica nos permite diferenciar bactérias gram-negativas e gram-positivas.
Bactérias gram-positivas vão apresentar tons de azul-roxo enquanto as gram-negativas exibirão uma tonalidade vermelha-rósea.
Ziehl-Neelsen e Fite-Faraco
Nem toda bactéria é susceptível à coloração tradicional de Gram!
Algumas, como os bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR), exigem técnicas mais específicas para serem evidenciadas na histologia. Você precisará conhecer essas técnicas quando estiver lidando com micobactérias e Nocardia spp, por exemplo.
Para essas, é preciso utilizar outro tipo de coloração, como Ziehl-Neelsen (ZN) e Fite-Faraco (FF). O FF consiste em uma adaptação da ZN: é adicionado um óleo vegetal (amendoim, oliva) no xilol durante o processo de desparafinização.
Através dessas colorações, as BAAR adquirem um tom de vermelho-rosa enquanto o fundo/restante dos tecidos apresentarão um tom azulado.
Giemsa
Muito utilizado para a análise de parasitas no sangue, a coloração de Giemsa também pode ser utilizada na histologia para detectar protozoários em cortes de tecidos.
Quando positivo, os parasitas se destacam por uma coloração azul escura, enquanto o fundo pode exibir tons de azul mais claro ou rosa.
Periodic acid–Schiff (PAS)
A PAS é capaz de evidenciar alguns parasitas e fungos, exibindo um tom de vermelho-róseo quando positivo.
Desvendando pigmentos
Meus peixes exibiram gotículas hialinas e acastanhadas principalmente em fígado e rim. Seriam depósitos de ferro? Proteína?
Para dar uma luz além da do microscópio, utilizei 3 colorações especiais para desvendar o mistério desses pigmentos.
PAS
Aparecendo mais uma vez por aqui, mas para um propósito diferente: corar as gotículas rosas que encontrava com frequência no fígado. Assim como na investigação de parasitas, estruturas positivas ao PAS irão se manifestar com tons de vermelho-rosa.
Perls
Para entender a natureza dos pigmentos castanhos, utilizei o Perls para confirmar se eles se tratavam de hemossiderina ou melanomacrófagos.
Quando positivo, as estruturas que contém ferro apresentarão uma coloração azul-escura.
Fontana-Masson
Bettas apresentam bastante pigmentos, e esses pigmentos podem variar de acordo com a cor do indivíduo e podem ser encontrados em tecidos além da epiderme/derme.
Para a confirmação de pigmentos de melanina em alguns tecidos dos meus peixes, foi utilizado a coloração de Fontana-Masson. Essa técnica consiste na redução de sais de prata, fornecendo um tom enegrecido na estrutura em um fundo rosado quando positivo.
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